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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Pagamento

O Pagamento
Philip K. Dick (2004)
Record - 382 pág.

Contos de ficção científica.

Existem coincidências que levam a gente a conhecer novos autores. Eu ouvi falar desse autor várias vezes em um curto espaço de tempo, uma crítica de uma obra, um filme com o Matt Damon, outro com o Keanu Reeves, etc., até que encontrei esse volume em um sebo.
Comprei e li, porque tenho uma certa queda por ficção científica, mas os contos não corresponderam aos elogios da contra-capa. 

É um autor americano recente, morreu em 1982, e algumas de suas obras inspiraram os filmes: Blade Runner, Minority Report, O Vingador do Futuro e Os Agentes do Destino.


O Pagamento - Esse é o conto que deu nome ao livro e que, ao que parece, já virou filme.  Não me animei a pegá-lo.  Um homem encerra seu contrato em uma empresa e vai ao escritório receber seu pagamento.  Lá, uma secretária lhe entrega um envelope com alguns itens estranhos: um arame, um crachá, um bilhete de ônibus... Atônito, ele questiona o pagamento e verifica que ele próprio alterou o contrato para mudar o pagamento de uma certa quantia em dólares para esses badulaques.  Qual a razão?  É o que ele sai para descobrir.

Babá - Nesse ele faz uma severa crítica à indústria tecnológica e aos métodos empregados para forçar os consumidores a comprarem sempre o último modelo.  Um homem percebe que a babá-robô de seus filhos começa a apresentar avarias.  Ele resolve vigiá-la, até que percebe que outros modelos de babás-robôs, mais novos, estão atacando os mais antigos, durante a noite.

O Mundo de Jon -Em um mundo pós-destruição por uma guerra de máquinas, viajantes no tempo devem voltar ao passado para roubar uns papéis de um cientista. Na confusão, o tal cientista morre.  Ao voltar, eles descobrem que tinham evitado a guerra e seu mundo não era mais o caos que conheciam. 

Café da manhã no crepúsculo - Esse aborda uma questão interessante, sobre como as pessoas preferem as explicações que não incomodam. Família acorda, se prepara para tomar café-da-manhã e iniciar um novo dia quando percebe que, não há mais nada do lado de fora... Só poeira e fumaça. A vizinhança toda sumiu no meio de destroços e só a casa deles está de pé.

A cidadezinha - Um homem que foi rejeitado por sua família, na escola, por sua própria mulher, é demitido da empresa onde trabalhou por anos. Chega em casa e encontra a mulher com o amante.  Sem ligar para nada, vai para o porão, onde mantém um grande circuito de trem elétrico com uma réplica da cidade que ele mesmo construiu.  Irritado, ele começa a substituir os prédios dos lugares que ele não gosta por outros. E algo acontece com a realidade.

O Pai-coisa - Esse me lembra outra história qualquer.  Um menino vê pela janela seu pai conversar com outro homem, idêntico a ele. De repente, a cópia ataca o pai e suga sua vida. Depois, leva a casca vazia até a garagem e entra na casa, como se fosse o pai.  O menino finge nada ter visto e procura ajuda de seus colegas de escola, descobrindo que são seres em forma de larva que estão crescendo como casulos em uma plantação ali perto.

A cerca de cromo - Em uma sociedade do futuro espera-se o resultado de eleições entre os "Naturalistas" e os "Puristas". Antes de saber o resultado, uma família debate o assunto na hora do jantar, o filho sendo um purista, que acha que as pessoas devem ser submetidas a cirurgias para extrair glândulas de suor e para impedir o mal-hálito, enquanto o tio defende a manutenção do natural.  Os puristas vencem e o tio foge.
O pai que até então não queria saber de nada disso é quem acaba discutindo e sendo entregue aos puristas pelo próprio filho.  Mas ele prefere se deixar eliminar pela polícia a viver daquela forma.

Autofab - Para sustentar a população durante a guerra, foram criadas fábricas subterrâneas totalmente automatizadas para extrair e produzir os alimentos e os gêneros de primeira necessidade. Só que a guerra acabou e as fábricas continuam em plena operação, esgotando todos os recursos possíveis e fornecendo produtos que as pessoas não desejam...

Os dias de Pat Prafrente -  Esse é bem chatinho. Em um momento do futuro, em uma terra desolada, pessoas vivem em abrigos e passam o tempo com jogos com uma boneca, em que simulam uma vida normal para ela.

Plantão - No futuro, quando os EUA são governados por um computador gigante, o presidente é uma figura escolhida para ficar sem fazer nada, de plantão, para o caso de ser necessária. Como há muito tempo não é, escolhem sempre o funcionário mais simplório e inútil (será que tem alguma crítica nisso?). Só que a Terra é invadida por seres espaciais que destroem o computador, e é preciso que o presidente assuma. 

Uma coisinha para nós, temponautas - Esse também é bem chatinho.  Viajantes do tempo vão ao futuro e, lá, descobrem que eles morreram ao tentarem voltar para o seu tempo normal. 

As pré-pessoas - Esse é um claro manifesto contra o aborto e contra a idéia que uma pessoa possa determinar quando outra é necessária.  No futuro, as leis permitem que qualquer família que não esteja satisfeita com seu filho possa entregá-lo para "eliminação", basta que tenha até 12 anos, porque são considerados apenas "pré-pessoas".  Esse valeu o livro.

 [terminei em 14/05/2013]

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O homem que não gostava de gatos

The man who disliked cats
P. G. Wodehouse (1912)
ebook (14 pág.)

Conto publicado originalmente em jornal e, posteriormente (1914), editado em uma coletânea (The Man Upstairs).   Hoje, está em domínio público e disponível em vários sites.

Homem conta seu drama pessoal, motivo porque não gosta de gatos.
Sem gostar de trabalhar, ele foi empregado no hotel de seu tio.  Lá, vários hóspedes têm animais de estimação e ele arruma grande confusão com uma cliente que tinha um  gato.

O tio, por amor ao irmão, o mantém no hotel, onde ele se apaixona por uma moça e consegue ser convidado para passar uns dias em sua casa de campo.  Lá, ela é cortejada por outro homem que lhe dá um presente: o mesmo gato....

Como já disse outras vezes, gosto muito desse autor, mas esta história não corresponde ao seu humor habitual.

E eu gosto de gatos.

[terminei em 17/07/2012]

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

My Man Jeeves

My Man Jeeves
P. G. Wodehouse (1919)
ebook (128 pág.)

Humor.

Coletânea de histórias curtas.

Neste volume, aparecem, pela primeira vez, os personagem Jeeves e Wooster, embora alguns dos textos ainda se refiram ao nome Regie Pepper, protótipo do Bertie.

As histórias não são tão boas como as de outros livros dele que já coloquei aqui, mas sempre bem escritas e com uma boa dose de humor.

O livro, no formato eletrônico, está disponível no Projeto Gutenberg.

E, de graça, acabei me animando a enfrentar a leitura em inglês. 

Foi bom. Devo ter perdido uma ou duas piadas, mas valeu.
No entanto, não recomendo o livro.  Os temas são repetitivos e há outros do mesmo autor melhores. 

Mas vamos às histórias:
Em várias delas há uma questão paralela envolvendo uma gravata, um bigode, um casaco... e Jeeves sempre tem razão.

LEAVE IT TO JEEVES
Bertie resolve ajudar um amigo, Corky, que é pintor e, por isso, precisa da ajuda financeira de um tio.  Só que o tio pensa que o sobrinho é um empresário... A confusão se estabelece e é preciso deixar a solução para o Jeeves.

JEEVES AND THE UNBIDDEN GUEST
Tia Ágatha manda uma amiga procurar o Bertie para que este acolha seu filho em casa enquanto a tal amiga, Lady Malvern, faz uma pequena viagem.   A mãe pensa que o garoto é tímido e caseiro, mas enquanto ela está fora, ele cai na gandaia, enche a cara e acaba preso. E a mãe volta de repente... Jeeves explica.

JEEVES AND THE HARD-BOILED EGG
Um outro amigo, Bick, está com problemas. Seu tio, o Duque de Chiswick, deve chegar a qualquer momento e, segundo o que estava combinado anteriormente, o sobrinho deveria estar no Colorado e não em Nova Yorque. A situação se enrola, com um plano doido de conseguir dinheiro mostrando o Lorde Inglês a uns empresários do interior que pagaram ingresso... o tio descobre, fica ofendido, mas isso acaba sendo bom para o rapaz que, finalmente, enfrenta o tio e passa a cuidar da própria vida. Jeeves resolve novamente.

ABSENT TREATMENT
Nesta história, o personagem é o outro, Reggie Pepper.
Um amigo, Bobbie Cardew, é casado com Mary Anthony, só que ele é muito esquecido.  Se esqueceu do aniversário de casamento e, pior, do aniversário da mulher. Ela vai embora.
Só que isso é parte de um plano, arquitetado com Reggie, para mudar o marido. Como Jeeves ainda não existia,  a coisa termina em confusão.


HELPING FREDDIE
Freddie Meadowes brigou com a noiva, Angela West, e está muito deprimido. Seus amigos o levam para uma casa de campo. Só que a noiva, justamente, estava hospedada na mesma região.  Sequestro de criança, peça de teatro, tudo isso (e mais alguma coisa) é usado como arma na tentativa de reconciliar o casal.

RALLYING ROUND OLD GEORGE
Esse conto tem um quê de policial. O personagem, que tem outro mordomo, chamado Voules, está em um iate em Monte Carlo. Acontece um assassinato na cidade e um amigo, que, após beber muito, não se lembra de nada do que fez na noite anterior, fica apavorado pensando que pode ser o assassino. Reggie resolve ajudar...

DOING CLARENCE A BIT OF GOOD
Elizabeth Shoolbred, ex-namorada de Reggie,  pede sua ajuda. Seu marido é pintor mas se incomoda muito com um quadro de uma Vênus que o pai dele pintou e deu a eles como presente de casamento.  Ela quer que Reggie roube o quadro...  e algo sempre pode dar errado.

THE AUNT AND THE SLUGGARD
Jeeves e Bertie voltam a aparecer. Rocky, um amigo, gosta do campo e de escrever poesias do tipo daquelas de cartões de aniversário. Uma tia o manda para Nova Yorque com a incumbência de escrever para ela contando sobre as peças de teatro, as festas, etc, ou seja, tudo o que ele não gosta.  Combinam, então, de mandar Jeeves aos restaurantes e teatros para recolher informações e contá-las a Rocky que escreveria as cartas com uma boa dose de ficção.  Poderia dar certo? É claro que não. Mas Jeeves resolve.


[terminei em 01/07/2012]

domingo, 5 de agosto de 2012

O Gato Webster

Webster le Chat (The Story of Webster)
P. G. Wodehouse (1933)
Arcanes (61 pág.)

Humor.

Esta editora francesa resolveu editar contos isolados do autor inglês P.G. Wodehouse, que, normalmente são publicados em conjunto ou em coletâneas.
É o caso deste.  Por isso, o livrinho é fino, bem fininho mesmo, só com um conto.

O personagem principal é um jovem artista que tem um tio endinheirado. Só que o tio é moralista e não concorda com a opção boêmia do sobrinho que, por outro lado, depende da ajuda financeira do tio.

Em um determinado momento, o tio precisa viajar e deixa Webster, o seu gato, na casa do sobrinho.
Só que a presença do gato intimida o rapaz que começa a atribuir aos olhares do felino conotações de crítica ou menosprezo, e o jovem vai modificando sua vida, pouco a pouco, fazendo aquilo que ele acha que o gato (e o tio) quer.
Desesperado, ele pega uma garrafa de bebida e resolve se embebedar e acabar com a própria vida.
Aí.....  (Não conto mais....)

Eu gosto muito desse autor, porque algumas de suas obras são hilariantes, de chorar de rir mesmo.  Não é o caso desse conto, mas, ainda assim, é bom, bem escrito e vale a pena.

Essa edição está em francês e, em inglês, o conto foi publicado no livro de nome "The Mulliner's Nights". Em português, infelizmente, nada.
 
[terminei em 28/04/2012]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Gatos e Homens

Des Chats et des Hommes
Patricia Highsmith (1966, 1975 e 1979)
trad. para o francês de Ronald Blunden (2007)
Le Livre de Poche (122 pág.)

Suspense.

Essa é uma pequena coletânea de três contos que, originalmente, haviam sido publicados em outros livros. 
O motivo da união é que as três histórias envolvem gatos, uma delas, inclusive, é narrada por um deles.
Para completar, ainda acrescentaram 3 poesias (embora poesia não seja o forte dela) e um texto que explica o amor da autora pelos gatos.

Un truc rapporté par le chat ("Something the cat dragged in") - A tradução em português seria "Algo que o gato trouxe".
Em uma casa de campo na inglaterra, um casal e alguns amigos passam o tempo jogando, enquanto esperam pelo chá.  De repente, notam que o gato trouxe algo para casa (os gatos têm essa mania, de trazer as presas para os donos verem...).  E o que seria?  Dois dedos de um homem....


Une maîtresse pour deux ("Ming's Biggest Prey") - Aqui os títulos divergem. O original era "A maior presa de Ming" e em francês eles fizeram um trocadilho com a palavra maîtresse que, em português quer dizer, ao mesmo tempo, amante e dona.
É o Ming que narra a história, falando de sua dona, uma mulher rica que tem um amante vagabundo que, às costas da mulher, rouba as suas jóias e maltrata o gato.  E eles se enfrentam...

Le nichoir était vide ("The Empty Birdhouse") - "A casa de passarinhos vazia". Esse é mais de terror. Uma mulher vê um animal dentro de uma casinha de madeira para passarinhos que estava pendurada na parede da varanda. O animal foge sem que ela pudesse distinguir que animal era.  Para se livrar dele, então, pegam emprestado uma gata.

A autora escreve bem, mas nenhuma das três histórias me empolgou realmente.  A primeira começa muito bem, mas tem um final meio assim-assim, a terceira, como já disse, é mais de terror e acho que a segunda é a melhor.

Mas me deu vontade de conhecer mais da obra dela.

[terminei em 01/03/2012]

sábado, 17 de março de 2012

Beijo,

Beijo, (Kiss Kiss)
Roald Dahl (1959)
Barracuda (301 pág.)

Contos de humor (negro...)

Roald Dahl é muito conhecido por sua obra para crianças, especialmente por Charlie and the chocolat factory (A Fantástica Fábrica de Chocolates) que virou filme duas vezes.

No entanto, esses contos são para adultos.  Sim, porque todos, em maior ou menor grau, têm uma grande dose de morbidez, violência e horror ou, pelo menos, tensão e infidelidade, qualidades que os afastam das crianças, mas os tornam perfeitos para os adultos que gostem de emoções fortes.

Dahl explora a crueldade e a vingança que residem dentro de pessoas comuns,  como eu e você,  e como esses sentimentos podem transbordar em situações do cotidiano.

Alguns contos já eram meus conhecidos do livro "Coup de Gigot et autres histoires" e foi um prazer reencontrá-los.

Como em qualquer coletânea, é impossível manter o mesmo nível em todos os contos e teve um ou outro que não me agradou tanto quanto os outros, mas a média é alta.

Vamos a eles:

A dona da pensão  (The landlady) - Rapaz chega em outra cidade a trabalho e se dirige a um hotel.  No meio do caminho, ele percebe em um apartamento um pequeno cartaz de "Quartos com café da manhã" e é recebido por uma doce senhora com um papagaio e um cachorro. Só que eles estão tão quietinhos...
William e Mary (William and Mary) - Homem, professor de Oxford, com câncer de pâncreas, no hospital, recebe visita de um amigo cientista que quer manter o seu cérebro vivo, após sua morte.  Quando isso acontece, sua mulher recebe uma carta descrevendo todo o processo e vai visitar o "marido".

A ascensão aos céus (The way up to Heaven) -  O título original seria "O caminho para o céu".
Mulher tem pavor de chegar atrasada nos locais, em particular de perder trens, ônibus, aviões.  E o marido a tortura com isso, demorando bastante para sair, voltando para pegar algo que esqueceu. Até o dia em que ela vai voar para Paris, para visitar a filha e os netos.

O prazer do pastor -  Comerciante de móveis antigos usa de vários estratagemas para conseguir comprar bem barato os móveis que valem muito.  Um belo dia, disfarçado de pastor, chega a uma fazenda e encontra um móvel raríssimo, ultra valioso, do qual só se conheciam outras 3 variantes.  Mas ele resolve, mesmo assim, pechinchar, e muito...

A Sra. Bixby e o casaco do coronel - O meu favorito. Mulher infiel ganha de presente do amante, como despedida, um casaco de peles caríssimo e lindo. Mas como chegar em casa com ele? Como explicar ao marido?

Geléia Real - Produtor de mel, descobre uma maneira especial de alimentar seu bebê, esquálido, que não conseguia se alimentar e estava já beirando a morte.

Georgy Porgy - Reverendo de cidade do interior, muito tímido, tem problemas no relacionamento com mulheres, mas sua paróquia está repleta de solteironas, que partem para o ataque.

Gênese e catástrofe - Mulher traumatizada pela perda de 3 filhos, dá a luz ao 4º, e cobre o médico de perguntas, duvidando que ele vá sobreviver.  Não está entre os meus favoritos, e acho que o mistério da história foi revelado um pouco antes do momento ideal.

Edward, o conquistador - Na propriedade de um casal de meia-idade, aparece um gato cinza.  A mulher gosta dele, o leva para casa e ele demonstra gostar quando ela toca piano.

Porco - Esse achei fraco.  Menino criado no interior, somente por sua tia vegetariana, vai, após a morte dela, a Londres, come carne de porco pela primeira vez e fica maravilhado.

O campeão do mundo - Dois homens resolvem caçar faisões na propriedade alheia, fortemente vigiada.  Eles desenvolvem um método próprio...

Recomendado, recomendadíssimo.
Ah! e a vírgula não foi erro, não, faz parte do nome do livro mesmo. Só não me perguntem o porquê...

[terminei em 21/02/2011]

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um gato indiscreto e outros contos

Um gato indiscreto e outros contos
Saki (Hector Hugh Munro) (+/- 1904/1916)
tradução de Francisco Araújo da Costa (2009)
Hedra (141 pág.)

Contos.

Saki é o pseudônimo de Hector Hugh Munro, escritor inglês que viveu entre 1870 e 1916.

Tendo perdido sua mãe quando ainda muito pequeno, foi criado por tias rígidas na Inglaterra.
Se tornou policial, foi aposentado após ter pego malária em Burma, então parte do império britânico, o que o fez voltar à Inglaterra, onde passou a escrever como jornalista.

Sua obra, na maior parte de histórias curtas, foi orinalmente publicada em jornais e, após, reunida para publicação.

Seus contos são bem, mas bem curtos mesmo, e, ao mesmo tempo, extremamente críticos e ácidos.

Vamos a eles:

Um gato indiscreto - o melhor conto da coletânea, disparado, motivo porque emprestou o nome ao livro.  Em uma casa de campo, Lady Blemley reúne seus hóspedes para o chá.  Entre eles, um cientista que afirma poder fazer os animais falarem.  Todos acham graça, mas ele afirma ter tido sucesso com Tobermory, o gato da casa.  O dono vai chamá-lo para ver se é verdade....

Reginald / Reginald no teatro / Reginald e as preocupações -  Reginald é um "dandy" crítico, muito crítico.  Três contos em que ele expõe suas "qualidades" em um jantar, em uma noite no teatro e em conversa com uma tia.

O sanjaque perdido - Um capelão vai ouvir a confissão de um condenado à morte. E ele explica porque vai morrer: Ele trocara de roupa com um homem no caminho... e depois não soube se defender por ignorância.

O camundongo - Jovem muito educado e formal sofre durante viagem de trem em que, compartilhando um vagão com uma mulher desconhecida, percebe que um camundongo entrou pelas pernas de sua calça.

O estrategista - Jovem encontra grupo de inimigos em festa e precisa se livrar das possíveis agressões.  E ele se sai bem, com muita imaginação.

Gabriel-Ernest - História de lobisomem.

Esmé - Duas amigas se perdem durante uma caçada. No meio do bosque, encontram uma hiena que pertencia a um lorde conhecido que gostava de criar animais exóticos e que se perdera. A hiena resolve acompanhá-las.

O tigre de Mrs. Packletide - A sra. Packletide tinha o sonho de caçar um tigre e resolve ir à África.

A tela - Homem viaja para receber uma herança e resolve fazer uma tatuagem nas costas. O artista morre logo após, antes de ser pago. Ele procura a viúva mas já não possui o valor combinado. Aí começa a confusão.

A cura do desassossego - Homem escuta conversa em um trem na qual um homem afirma estar vivendo uma monotonia, precisando de "uma cura do desassossego".  E o desconhecido resolve presenteá-lo com a tal "cura".

Sredni Vashtar - Menino é criado por tia muito dura.  Tentando arrumar alguma diversão, passa a criar um furão em um galpão no fundo do quintal. O nome do conto é o nome do furão.

Filboid Studge - Homem pobre quer se casar com a filha de um empresário, só que ele não sabe que o empresário está á beira da falência, o que faz com que ele concorde com o casamento, de imediato.  O rapaz fica tão contente que afirma querer retribuir o favor.

A loba - Homem, após breve viagem pelo oriente da Rússia, se arvora em grande conhecedor de ciências ocultas.  Só que ele cruza o caminho de Clóvis que resolve desmascará-lo.

A janela aberta - Homem com problemas nervosos recebe a sugestão de fazer visitas a desconhecidos.  Em uma ocasião, enquanto espera pela dona da casa, conversa com uma menina que tem um grande talento para inventar histórias.

O método Schartz-Metterklume - Lady Carlotta perde o trem que ia pegar. É, então, confundida com uma mulher que esperava a nova governanta. Tendo que esperar pelo trem do dia seguinte, ela finge ser realmente a governanta e passa a "educar" as crianças. 

A omelete bizantina - No dia de um jantar importante, os empregados resolvem fazer greve.

O contador de histórias - Homem em um trem tem que dividir o vagão com uma tia rígida e seus três sobrinhos pequenos que, obviamente, não param quietos.  O homem resolve, então, contar histórias.

Os intrusos - Dois vizinhos inimigos caçam um ao outro em bosque motivo de disputa.


Eu gostei.  Gosto do humor inglês ácido.  E esses contos são tão curtinhos que sempre deixam um gostinho de quero mais.
Recomendo.

[terminei em 23/10/2011]

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Fantasma de Canterville

O Fantasma de Canterville e outras histórias
Oscar Wilde (1887 - 1891)
L&PM (198 pág.)

Reunião de contos que haviam sido publicados, originalmente, em coletâneas diferentes.
Eu gosto de contos. Acho um tempo bom, suficiente para apresentar os personagens e desenvolver a história sem cansar.

Neste caso, é realmente um prazer. Oscar Wilde escreve muitíssimo bem e a tradução é irrepreensível.
Hoje em dia, Wilde é muito conhecido por suas citações.  Este livro guarda algumas.

O Crime de Lorde Arthur Savile (1891) - Jovem apaixonado, prestes a casar, durante uma festa tem seu destino lido por um quiroprático:  Assassinato.  Ele sai atordoado e pensando no que devia fazer...  (mais eu não conto...)

"O mundo é um palco, mas a peça está sendo encenada com um elenco péssimo."

O amigo devotado - Esse é capaz de enervar qualquer um, a gente realmente fica odiando um dos personagens...  Fala sobre a diferença entre falar e fazer.   Lembra um pouco, na forma, as fábulas de Esopo, La Fontaine...

" - Receio tê-lo aborrecido - (...)
O fato é que contei a ele uma estória com moral.
- Hmm! Isto é sempre uma coisa muito perigosa de se fazer (...)"

O fantasma de Canterville (1887) - O conto mais famoso de Wilde, que deu nome à coletânea.  Humor e crítica feroz.  Ele gira a metralhadora e ataca, ao mesmo tempo, americanos e ingleses.
Muito bom.

Uma família americana, na Inglaterra, compra a casa do Lord Canterville, apesar de todos avisarem que ela era assombrada pelo fantasma de um ancestral que ali matara a esposa e morrera.
Inicia-se, então, o confronto entre a família e o fantasma...

"Na verdade, era bastante inglesa em vários aspectos; um excelente exemplo de que temos tudo em comum com os Estados Unidos hoje, exceto, é claro, a língua."


O jovem rei (1888) -  Um rei morre sem filhos.  Ou melhor, ele deixa um filho bastardo que fora criado por uma família pobre.  De repente, ele se vê transformado em príncipe prestes a ser coroado.
Uma capa bordada em ouro, uma coroa com rubis e um cetro de pérolas estão sendo preparados para o grande dia.  Na véspera, maravilhado com tantas belezas e riquezas, dorme e sonha...

Impossível não lembrar de três outras histórias de outros grandes escritores:  A questão dos sonhos reveladores, que já havia sido utilizada por Dickens em seu "Conto de Natal" de 1843, e o pobre que se transforma em príncipe de Mark Twain em "O Príncipe e o Mendigo" de 1882.
Posteriormente, Tolstoi também produz um conto em que um Tzar sonha sobre sua vida em "O Reveillon do jovem Tzar" de 1895.

Recomendo todas as quatro.

"- Na guerra - replicou o tecelão -, o forte escraviza o fraco,
e, na paz, o rico escraviza o pobre."

O milionário modelo (1891) - Homem prestes a casar, mas sem dinheiro, visita um amigo pintor e limpa o bolso dando esmola a um mendigo que servia de modelo para um quadro. Leve, curto e divertido.

"Trevor era pintor. Na verdade, poucas pessoas escapam disso hoje em dia. 
Mas ele era também um artista, e artistas são muito raros."

O pescador e sua alma - Esse conto e o seguinte são os mais fracos da coletânea.  Homem se apaixona por uma sereia. Para viver com ela, deve se separar de sua alma.  Longo e cansativo.

O Retrato do Sr. W.H. (1889) - Desenvolvimento de toda uma teoria sobre a real identidade do "Sr. W.H." citado nos Sonetos de Shakespeare, envolvida em uma história sobre ética. Pode-se mentir na defesa de uma idéia? Cansativo.


O príncipe Feliz (1888) - Conto infantil.  Lindo e triste.

Uma andorinha faz amizade com a estátua de um príncipe que, em vida, havia sido feliz.  Só que agora, do alto de seu pedestal, ele enxerga o seu reino.

Não sei se foi por conta da andorinha, mas lembrei logo do Jorge Amado e seu "O gato malhado e a Andorinha Sinhá"
Só este conto já vale o livro que recomendo, sem dúvidas.


[terminei em 01/03/2011]

domingo, 20 de fevereiro de 2011

História para rir

Histoire de rire et autres nouvelles
Anton Tchékhov (1886)
trad. Anne Coldefy-Faucard (2004)
Librio (89 pág.)

Livro de contos.

Tchékhov é ótimo, sensível e crítico ao mesmo tempo.
Todas as vezes que o leio lembro de Maupassant e de Machado de Assis. Cada um tem seu estilo próprio, mas ambos "colocam o dedo na ferida" da sociedade de sua época.  Todos com maestria, é claro.


Histoire de rire - Jovem rapaz convence uma moça, Nádia, a descer uma montanha de trenó, apesar do pavor que ela sente.  No caminho, no meio do barulho do trenó e do vento, ele sussurra: "Nádia, eu te amo" e a moça, sem ter certeza se realmente ouviu dele a frase ou se se tratava de um som vindo no vento, repete e repete e repete a descida...

Le roman d'une contrebasse - Contrabaixista, indo tocar em um casamento, resolve parar no caminho para se refrescar em um riacho. Só que ele se distrai vendo bela moça que pescava na margem e suas roupas são roubadas...

Miroir déformant - Homem vai a casa de seus ancestrais com sua mulher. Lá ele mostra a foto de uma parenta, muito feia, mas que adorava um espelho. Não qualquer espelho, mas um em particular, que ela não largava de forma alguma. A mulher tem curiosidade de ver o espelho e passa a viver grudada com ele. Por quê?

Ah, les usagers ! - Um cobrador de bilhetes em um trem é muito diligente em seu trabalho e acaba arrumando confusão.

Fragments du journal d'un irascible - Diário de um  rapaz que se afirma irascível, sem paciência para nada, e que os outros não sabem o que os espera. Uma jovem vizinha, no entanto, não o deixa em paz.

Les nerfs - Em um dia em que sua mulher estava viajando, um homem participa de uma reunião e escuta histórias de fantasmas.  Quando vai para casa, fica apavorado, não consegue dormir e começa a infernizar a vida de sua empregada.

Polinka - Moça que trabalha em um atelier de costura, vai a um armarinho comprar fitas e outras coisas, mas quer, na realidade, conversar com um rapaz.

Un drame - Escritor, em sua casa, recebe a visita de uma mulher que afirma ter escrito um romance.  Ela quer porque quer que ele escute a sua leitura em voz alta do tal romance.... inteiro.

La maison de la mezzanine -Jovem pintor conhece uma família que tem duas filhas.  Ela passa a freqüentar a casa e descobre que a mais nova é bem doce, mas a mais velha é mandona e muito ligada a política.  Ele se apaixona por uma...

Livrinho pequenino, baratíssimo.  Na França, ainda mais barato do que aqui, lá custa apenas 2 Euros.
Mas de excelente qualidade. O texto, quero dizer..  A edição é simples, em papel jornal, mas não desfolhou... (Como eles conseguem e as gráficas daqui não?)

Os meus favoritos foram o primeiro, (Histoire de rire) o do espelho (Mirroir déformant) e o do escritor (un drame), mas os outros também são bons.

[terminei em 09/02/2011]

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A Gente se Acostuma a Tudo

A Gente se Acostuma a Tudo
João Ubaldo Ribeiro (2006)
Editora Nova Fronteira (222 pág.)

Diversas crônicas do escritor publicadas em coluna semanal em jornal do Rio de Janeiro.

As crônicas selecionadas para esta coletânea, na sua quase totalidade, tratam de política, mais especificamente, do Governo Lula o que fez com que a leitura me fosse consideravelmente tediosa, pela repetição do tema.

Não obstante, é claro que o João Ubaldo escreve bem e, mais do que isso, pensa (o que às vezes é raro por estas plagas...) e há momentos memoráveis, como a crônica escrita na época em que o Lula, na África, resolveu pedir perdão aos africanos pela escravidão.

 Antes de transcrever parte da crônica, algumas observações minhas.
1 - A escravidão é abominável, sempre.
2 - A escravidão no Brasil, em alguns casos, era mais que abominável, havia torturas inomináveis.
3 - Pedir perdão é sempre bom.
No entanto,  4 - As pessoas que ficaram na África não foram escravas no Brasil.
5 - Os escravos eram vendidos aos navios negreiros na Costa da África, por negros africanos que caçavam outros negros de tribos inimigas e os levavam até os compradores. Assim, seriam os africanos que deveriam pedir perdão aos negros brasileiros e seus descendentes.
6 - Se compararmos, hoje, a situação dos brasileiros descendentes de escravos e de muitos africanos, a situação dos brasileiros é melhor (os africanos andam cortando mãos e pés uns dos outros). 
7 - Posso falar com tranqüilidade sobre o assunto porque sou uma típica brasileira, filha de português, de um lado, com uma mistura, do outro, de português, nordestino, negro e índio, o que resultou em mim: branca do cabelo crespo (se fosse gata, seria uma gata malhada), tendo em mim parcela do escravo e escravizador.
8 - Moro no Rio de Janeiro e sei o que é preconceito de cor, pois sempre ouvi gozações várias pelo fato de não ter a pele bronzeada... (eu só fico vermelha e descasco, daí:  branca azeda, branquela, clara de ovo, desbotada, doente e variantes).
9 - E, finalmente, tenho horror ao preconceito, seja de brancos contra negros, como de negros contra brancos, ou verdes ou azuis, ou ricos, ou pobres, ou cultos, ou incultos, ou moradores do primeiro mundo, ou do terceiro (onde estará o segundo?), ou da zona sul, zona norte ou favela... etc.

Mas vamos ao João Ubaldo, que escreve melhor do que eu:
"... E a humanidade, branca ou negra, não é uma espécie lá muito meritória. Os negros, como os brancos, amarelos ou o que lá fosse, praticavam a escravidão entre si, porque eram muitos povos, todos diferentes e, naturalmente, se vendo como diferentes. (...)
Isso já acontecia na África anterior à chegada européia (...) Se nós devemos ter remorso e vergonha da escravidão, também eles devem ter remorso de haverem sido cúmplices e participantes ativos da escravidão, humilhação e infindável sofrimento de seus semelhantes. Semelhantes homens, friso eu, não semelhantes negros. (...) 
Acho importante recordar isso porque estamos engolindo cada vez mais a noção de que a raça nos divide, deixando de enxergar a evidente realidade de que os negros são também os verdadeiros primeiros brasileiros e que trouxeram com eles tão importante parte da riqueza cultural, que hoje nos ornamenta e singulariza. Nós conseguimos ser e agora vivemos fazendo força para deixar de ser, num gigantesco passo atrás, o único país onde de fato a humanidade se misturou e se mistura, onde ninguém permanece "de fora" (...) 
A verdadeira fraternidade não pode restringir-se àquela entre negros e negros ou brancos e brancos, ou qualquer outras categorias limitadas. A verdadeira fraternidade há de medrar entre todos os homens e a nossa nação não é branca, nem negra, nem índia, é brasileira. Sei que há quem não goste, mas brasileiros somos, brasileiros sempre seremos e brasileiros morreremos, na nossa esplendorosa mestiçagem que, para mim, aos olhos de Deus, é o mais belo testemunho do grande milagre da Criação, que não foi raça nenhuma, foi o homem e sua consciência.
Crônica publicada no "O Globo" em 24/04/2005






Voltando ao livro, acho uma pena, repito, que não tenham selecionado crônicas sobre assuntos mais variados.
Não chego a recomendar.
[terminei em 15/07/2010]

sábado, 5 de junho de 2010

O hábito não faz o monge

L'habit ne fait pas le moine
Philip Roth (2002)
Céline Zins (trad. do inglês para o francês)
Folio (110 pág.)

Contos.

Antes do livro, um pequeno comentário:
A Folio lançou esta série com o objetivo de divulgar os autores.  São pequenos livros ao preço de 2 Euros, o que não é nada para os padrões europeus... (o salário mínimo francês - SMIC este ano, em 2010, é de 1.343,77 Euros e o preço do livro corresponderia a R$ 0,76 em relação ao nosso salário mínimo daqui).
Não são obras de vulto, mas pequenas amostras. 

Neste caso, o livrinho traz 2 contos:

Défenseur de la foi (Defensor da fé) - História passada no fim da 2ª Guerra em que o narrador, Marx, um sargento, se vê manipulado por três soldados judeus, como ele, que utilizam argumentos da religião para conseguir privilégios. Só que...

L'habit ne fait pas le moine (O hábito não faz o monge) - Esse, embora dê o nome ao livrinho, não é tão bom quanto o outro.   O narrador conta casos de seu tempo de colégio (high-school - o equivalente ao 2º grau, científico, liceu, seja lá o nome que tenha hoje), quando conviveu com jovens que já tinham se envolvido em pequenos delitos.  O aluno descobre, ao final, que a escola mantém uma "ficha" com todos os seus atos registrados. Me pareceu uma crítica ao Macartismo, mas não posso garantir.

Philip Roth é um escritor americano, de origem judaica, ainda vivo.  Este livro não chegou a me entusiarmar, mas ele escreve bem, o texto flui, motivo porque não descartei a possibilidade de ler um de seus livros mais famosos: "A marca humana" ou "O complexo de Portnoy".
Mas esse eu não recomendo.

[terminei em 28/04/2010]

quarta-feira, 17 de março de 2010

O carneiro para a carnificina

Coup de Gigot et autres histoires à faire peur
Roald Dahl (1954)
Folio (125 pág.)

Contos de suspense, todos muito bons.
O curioso é que todos envolvem mulheres...

Coup de Gigot (Lamb to the Slaughter) - Aí temos o problema da tradução novamente.  Em francês o título quer dizer, literalmente, "O Golpe da perna do carneiro".  Só que, em português, ao ler tal título eu estaria mais inclinada a entender golpe como trapaça, como em "Golpe de Mestre"... e o significado mais próximo seria o de "pancada" como em "golpe de karatê".
Inglês não é o meu forte, mas o dicionário apresenta "carnificina" como tradução para "Slaughter" e foi o que escolhi para o título do post, mas também não é claro.  Na realidade, me parece mais que a intenção do autor fosse "O carneiro para o sacrifício" menção à história bíblica de Abraão, mas não tenho certeza.

Mas vamos ao conto: Mulher grávida espera, costurando, que o marido chegue do trabalho, já que é quinta-feira, o dia de jantar fora. Só que ele tem algo a lhe dizer...  Não conto mais, senão estraga  (o resumo das livrarias conta mais do que devia...)  mas mesmo assim vale a pena ler.

Tous les chemins mènent au ciel (The way up to Heaven) -  Novo problema de tradução. O título francês saiu com um "todos os caminhos levam ao céu" quando o original seria "O caminho para o céu".
Mulher tem pavor de chegar atrasada nos locais, em particular de perder trens, ônibus, aviões.  E o marido a tortura com isso, demorando bastante para sair, voltando para pegar algo que esqueceu...

La logeuse  (The landlady) - "A dona da pensão" - Rapaz chega em outra cidade a trabalho e se dirige a um hotel.  No meio do caminho, ele percebe em um apartamento um pequeno cartaz de "Quartos com café da manhã" e é recebido por uma doce senhora com um papagaio e um cachorro. Só que eles estão tão quietinhos...

William et Mary (William and Mary) - "Guilherme e Maria" - Homem, professor de Oxford, com câncer de pâncreas, no hospital, recebe visita de um amigo cientista que quer manter o seu cérebro vivo, após sua morte.  (Esse é bem fraquinho, ao passo que é muito cruel. Os melhores são os dois primeiros.)

[terminei em 01/03/2010]

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Fábulas de Esopo

Fábulas
Esopo (+/- 600 a.c.)
trad. Antônio Carlos Vianna (1997) L&PM (163 pág.)

Esopo é considerado como o criador da Fábula como gênero literário.  Teria sido um escravo, feio, corcunda e manco, mas que, a partir de sua capacidade de contar histórias, teria obtido sua liberdade.

La Fontaine, no século XVII, teve acesso a uma coletânea de cerca de 127 histórias a ele atribuídas e as reescreveu, em Francês e em versos.  

Este livro apresenta 352 fábulas, mas devo confessar, a maior parte é bem cansativa. Mas sempre há exceções à regra, como esta:

O velho e a morte

Carregando a madeira que acabara de cortar, um velho ia por uma longa estrada. Cansado, depositou no chão o seu fardo e pediu que a Morte lhe aparecesse. A Morte apareceu:
- Por que me chamaste?
E o velho:
- Para que leves meu fardo.
Por mais difícil que seja a vida, ninguém quer deixá-la.

[terminei em 09/04/2005]

domingo, 31 de janeiro de 2010

A dama do cachorrinho

A dama do cachorrinho
Anton Tchékhov (ou Chekhov) - 1883
trad. Maria Aparecida B.P. Soares
L&PM (185 pág.)

12 Contos. Tchékhov, para mim, é o Machado de Assis russo, não pelo estilo da escrita, não, Tchékhov é mais direto e conciso, enquanto Machado cria prazer no desenrolar das palavras, como de um novelo, mas quanto aos temas.  Os dois tratam do homem comum, de histórias comuns, do dia a dia e, assim, expôem o grande drama da vida de todos.   

A morte do funcionário - Claramente inspirado em cena de "O capote"  de Gogol.  No primeiro, o funcionário é destratado pela vaidade e insegurança do ministro que quer mostrar a amigo como é poderoso. Tchékhov, no entanto, parte da insegurança do funcionário, apavorado por ter espirrado na careca do superior.

O enxoval - Funcionário se lembra de três visitas que fez a uma mesma casa, sendo que, na primeira, estava-se preparando o enxoval da filha.

Aniúta - Jovem mora em cortiço com um estudante de medicina, depois de já ter sido abandonada por outros estudantes, anteriormente.

A corista - Mulher recebe visita súbita da esposa de seu amante que a destrata e diz que ele teria feito dívidas por causa dela, deixando seus filhos na miséria, exigindo que a amante lhe devolva as jóias que teriam sido dadas por ele.

Vanka - menino órfão escreve carta a seu avô, no Natal.  De desesperar qualquer um.

Vérotchka - Porque ninguém manda em seu coração.... e não pode escolher a quem amar.

Zinotchka - Menino vê sua babá namorando com seu irmão mais velho e não consegue guardar o segredo.

A irrequieta - Mulher que, bem no espírito do sec. XIX, busca a companhia de pessoas importantes, artistas em geral, e ignora o marido, médico, sem saber que ele era mais importante, por suas pesquisas e atuação, que todos aqueles que a circundavam ... 

Anna no pescoço - Jogo de palavras, com o nome da personagem principal, Anna,  mas também uma condecoração que seu marido recebe (ordem de St. Anna).  Jovem pobre, órfã de mãe, com pai alcóolatra, que se casa com homem com posses, mais velho, por quem sente aversão.  Só que a história muda quando Anna vai a um baile...  (É a Madame Bovary russa.)

Iônytch - Médico de província se apaixona por jovem e, após sua recusa, passa a levar uma vida sem graça e se torna uma pessoa seca.

A dama do cachorrinho - Homem infeliz no seu casamento, para quem a traição já se tornou um hábito que, no entanto, não o faz feliz, encontra mulher infeliz no seu casamento, para quem a traição já se ....

A noiva - Jovem noiva, às vésperas do casamento, ouve conselhos de um primo, louvando o trabalho e o estudo e criticando todo o modo de vida da época, e foge para estudar.  Conto que mostra como as idéias que, logo a seguir, iriam despontar na revolução soviética, já se faziam ouvir.


[terminei em 17/01/2010]

domingo, 17 de janeiro de 2010

Contos do dia e da noite

Contes du Jour et de la nuit 
Guy de Maupassant (1885)
ebook (+/- 170 pág.)

Maupassant morreu jovem, com apenas 42 anos e, em sua curta carreira de escritor, que não durou mais de uma década, produziu mais de 300 obras.

Nunca tinha lido nada desse autor e o amei de paixão.  Um estilo direto, uma crítica cortante, extremamente afiada, de grande sensibilidade, tratando do ser humano e de suas incongruências sem hipocrisias e sem retornos.

Nesta coletânea, são 21 contos:
Le Crime au père Boniface - Um carteiro, vai lendo o jornal no caminho de suas entregas. Uma das notícias é sobre uma assassinato de toda uma família.  Impressionado, ele se aproxima de uma casa para eram destinadas duas cartas, escuta gritos e chama a polícia... (engraçado.)
Rose - Mulher contrata empregada como dama de companhia e descobre, depois que era um homem disfarçado, perseguido pela polícia por estupro.
Le Père - Homem encontra na rua uma paixão de juventude que o tinha abandonado subitamente e descobre que...
L'Aveu - Camponesa pobre confessa à mãe que está grávida...
La Parure - Mulher simples sonha com uma vida de luxo.  Seu marido, querendo agradá-la, consegue um convite para um baile. Ela precisa se apresentar adequadamente, e uma amiga empresta um colar de diamantes, que ela perde...  (muito bom.)

Le Bonheur - História de amor. Jovem rica se apaixona, abandona tudo e vai morar na Córsega.
Le Vieux - Médico afirma que um velho está à beira da morte e não passará da noite. A família começa, então, os preparativos para o velório, com muita comida.

Un Lâche - Homem repreende um outro que incomodava uma amiga casada e sofre demais com a perspectiva do duelo.
L'Ivrogne - Homem chega bêbado em casa, chama por sua mulher que não atende. Irritado, ele...
Une Vendetta - Mulher na Sardenha, tem seu filho morto à traição e planeja a vingança.
Coco - Empregado, enciumado, deixa cavalo morrer de fome.
La Main - Homem corta a mão de um inimigo e a coloca como troféu na parede. (história fantástica, muito boa!)
Le Gueux - Mendigo busca alimento.
Un Parricide - Menino bastardo é abandonado por seus pais.
Le Petit - Menino é mimado pelo pai, que amava loucamente a mãe.
La Roche aux Guillemots - Homem é convidado a caçar mergulhões (ave), mas precisa enterrar o genro.
Tombouctou - História de um soldado negro.
Histoire vraie - Homem engravida a empregada e procura marido para ela.
Adieu - Homem vê jovem e se apaixona por ela, por sua beleza. Doze anos após...
Souvenir - Jovem encontra casal perdido na rua.
La Confession - Mulher, à beira da morte, quer o perdão da irmã. (excelente!)
[terminei em 21/08/2006]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O médico e o monstro

O médico e o monstro e outras histórias
(The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde)
Robert Louis Stevenson (1886)
Martin Claret (125 pág.)

É um pequeno livro com três histórias, na realidade, três contos.

A primeira (O médico e o monstro), que dá nome ao livro, é claramente a obra prima do autor, que o levou ao sucesso e a viver do que escrevia.   Infelizmente, a enorme divulgação (até mesmo em desenhos animados), tiram a surpresa da história que, imagino, seja muito mais saborosa para quem a desconheça completamente, mas, mesmo assim, vale a pena.
Stevenson trata, de forma pungente e profunda, do maior conflito humano, de um ser dividido entre a vontade de satisfazer vontades egoístas cuja realização, muitas vezes, é capaz de causar o  mal a outras pessoas, e o desejo de autotransformação e aperfeiçoamento em busca de uma realidade melhor e mais nobre. 

A forma da história foi muito bem escolhida.  A narrativa começa com um personagem chamado Utterson, amigo do Dr. Jekyll  que, pensando estar protegendo o amigo,  começa a investigar o envolvimento deste com o estranho Mr. Hide.  O mistério só vem a ser solucionado no fim, através de cartas deixadas por homens mortos. 

A segunda (Markheim) segue a linha da primeira, discutindo a divisão do ser humano entre o bem e o mal e na responsabilidade de cada um em fazer as escolhas diárias.  -  Um jovem, Markheim, entra na loja de um negociante de objetos usados, velho conhecido seu e o assassina.  O curioso é que Stevenson apresenta o negociante com cores tão desagradáveis, de forma que o leitor se coloca facilmente na posição do assassino, o que é, à evidência, o seu objetivo.

A terceira (Janet do pescoço torcido) difere das anteriores, sendo melhor classificada como história fantástica.   Pregador de pequena cidade emprega mulher considerada como bruxa.  Em uma ocasião, ela é atacada pelas mulheres da comunidade e, no dia seguinte, aparece com a cabeça pendente, como se tivesse sido enforcada...


[terminei em 05/01/2010]

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quatro Contos

Quatre contes 
Prosper Mérimée / Alexander Pouchkine (1829)
ebook (+/- 45 pág.)

Mérimée é o autor de Carmem, drama transformado em ópera por Bizet.
Estudou russo e foi o tradutor de Nicolas Gogol, Alexandre Pushkin e Ivan Turgenieff.

Nesta coletânea, estão reunidos 3 contos seus e um de Pushkin traduzido por ele:

Mateo Falcone
Um fugitivo chega à casa de Mateo e encontra seu filho, Fortunato, que o esconde embaixo de um monte de feno.
A polícia chega depois e o comandante, parente distante, suborna o garoto com um relógio para que este diga onde está o homem procurado.
O pai chega a tempo de ouvir o fugitivo gritar: "casa de traidores!" ele descobre o relógio com o filho, fica furioso, e...

L'enlèvement de la Redoute
Narrativa sobre a tomada heróica de uma fortaleza.

Tamango
Tamango é um negro, caçador de negros, que os vende como escravos aos navios negreiros. Um dia, ele é levado também...
Muito interessante, vale como um estudo sobre a capacidade de liderança.

Le coup de Pistolet
Conto de Pushkin traduzido por Mérimée
História sobre um duelo começado em uma época e terminado muitos anos depois.  Contar mais que isso estraga a leitura.
[terminei em 27/10/2006]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Contos escolhidos dos irmãos Grimm

Contes Choisis
Irmãos Grimm  (18??)
ebook (cerca de 21 pág.)

Vários contos, curtos, todos com uma moral no fim.

O lobo e o homem; O violino maravilhoso; A raposa e os gansos; A raposa e o gato; O sol é testemunha; O doutor universal; O doce cozido;O lobo e a raposa; A coruja; Os três irmãos; O avô e o neto; Os três preguiçosos; O prego; O pequeno pastor; O camponês e o diabo; Os três velhos; A mortalha; A morte mais doce para os criminosos; A escolha de uma mulher e O melhor desejo.

Um bem conhecido é "O avô e o neto" (tradução livre minha):

"Era uma vez um homem velho, velho como as pedras. Seus olhos viam com dificuldade, suas orelhas não escutavam mais e seus joelhos vacilavam.  Um dia, à mesa, não podendo mais segurar a colher, ele derramou a sopa sobre a toalha e até um pouco sobre sua barba.

Seu filho e sua nora tiveram nojo e, a partir de então, o velho comia só, atrás do fogão, em um pequeno prato de cerâmica que era preenchido com dificuldade. Assim, ele olhava tristemente a mesa, e as lágrimas rolavam sob suas pálpebras; até que um dia, escapando às suas mãos trêmulas, o prato se quebrou sobre o piso.

Os jovens brigaram com ele e o velho soltou um suspiro; então eles lhe deram para comer um pote de madeira.

Ora, em uma noite em que eles jantavam à mesa, enquanto que o bom homem estava em seu canto, eles viram seu pequeno filho, da idade de quatro anos, juntar no chão algumas táboas.

- O quê você está fazendo? lhe perguntaram.
- Uma pequena vasilha, respondeu o menino, para dar de comer ao papai e mamãe quando eu estiver casado...

O homem e a mulher se entreolharam em silêncio...; lágrimas lhes vieram aos olhos.  Eles chamaram para junto deles o avô, que nunca mais deixou a mesa da família
."

[terminei em 14/03/2006]

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Novos contos para Ninon

Nouveaux contes à Ninon
Zola (1874)
ebook (218 pág.)

Contos.
Alguns razoáveis e outros muito bons, todos imbuídos de uma profunda crítica social. O mais conhecido é "O paraíso dos gatos", mas o meu preferido é "Os ombros da marquesa".

Um trecho da "marquesa" (em tradução livre):
" A marquesa dorme em seu grande leito, sob as largas cortinas de cetim amarelo. Ao meio-dia, ouvindo o claro timbre do relógio de pêndulo, ela se decide a abrir os olhos.
O quarto está aquecido. Os tapetes e os revestimentos das portas e das janelas fazem dele um ninho macio, onde o frio não entra. O calor e perfumes passeiam pelo cômodo. Ali reina uma eterna primavera.
E, desde que está bem acordada, a marquesa parece ser tomada por uma súbita ansiedade. Ela afasta as cobertas e toca a campainha para chamar Julie.
– Madame chamou?
– Diga-me, já degelou?

Oh! boa marquesa! Como ela formulou esta pergunta com uma voz emocionada! Seu primeiro pensamento é para este frio terrível, este vento do norte que ela não sente, mas que deve soprar tão cruelmente nas cabanas dos pobres. E ela pergunta se o céu foi bom, se ela pode estar aquecida sem remorsos, sem sonhar a todos aqueles que se gelam.
– Já degelou, Julie?
A camareira lhe oferece o peignoir da manhã, que ela acaba de aquecer diante de uma grande lareira.
– Oh! não, madame, ainda não degelou. Ao contrário, neva mais forte.... Acabam de encontrar um homem morto de frio dentro de um ônibus.
A marquesa é tomada de uma alegria de criança; ela bate as mãos, uma contra a outra, gritando:
– Ah! melhor assim! eu irei patinar esta tarde.
(...)
"

Precisa mais?
[terminei em 15/07/2008]

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O gato negro

Le Chat Noir 
E. Allan Poe (1843)
trad. Charles Baudelaire
Librio (91 pág.)

Contos.

Uma coisa estranha é reler uma obra.  O tempo passa e a impressão muda.
Li, a primeira vez, em português, quando criança.  Adorei.
Reli, agora, em francês, muitos anos após... Não tive o mesmo impacto, embora não me lembrasse quase de nada.
Mas são bons os contos.  Leia e me diga qual foi a sua sensação.
[terminei a releitura em 22/08/2008]