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quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Ratoeira e outras peças

A Ratoeira e outras peças
Agatha Christie (1954, 1945, 1944 e 1952)
Nova Fronteira - 394 pág.

Teatro. Policial.

Coletânea de 4 peças da autora.
Eu, particularmente, não me empolguei com nenhuma, mas servem como passatempo.

A Ratoeira (The Mousetrap) é a peça recordista em montagens, sendo que há, em Londres, um teatro que só a representa, mudando os atores a cada ano. 
Um casal resolve transformar a casa em uma pousada e recebe os primeiros quatro hóspedes.  Só que há uma nevasca e todos ficam presos ali. No rádio, as notícias sobre um assassino que teria se escondido na região...

Os Dez Indiozinhos ou "E não sobrou nenhum" -  Novamente os personagens ficam presos em um lugar... agora em uma ilha.  Várias pessoas recebem um convite de passar um fim de semana na ilha. Chegam todos mas os anfitriões não estão... Mortes começam a ocorrer, seguindo um poema pendurado na parede, ao mesmo tempo em que pequenas estatuetas somem.

Encontro com a morte - Esta peça é a transformação de um conto escrito em 1938 do qual participava o detetive Poirot.  Para a peça, escrita em 1944, a autora retirou o detetive e modificou o crime.
A peça se passa em Jerusalém.  Mrs Boyton, uma senhora rica que trata toda a família com tirania, morre. Todos têm motivos, mas quem a matou? 
Agora fiquei na curiosidade para ler o conto...

O Refúgio (The Hollow) -   Um homem casado com uma mulher inexpressiva, reencontra uma antiga paixão, agora atriz de cinema.  Ele morre.  Já se passaram muitos meses desde que eu li a peça ... e eu não me lembro mais quase nada...

 [terminei em 11/11/2012]


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sonho de uma Noite de Verão

Sonho de uma Noite de Verão (Midsummer Night's Dream)
William Shakespeare (1590)
LP&M (120 pág.)

Teatro.

Normalmente não gosto de contar o enredo, mas, neste caso, que o enredo é mais que conhecido, vou deixar os escrúpulos de lado:

Teseu, duque de Atenas, está para se casar com Hipólita.
Para comemorar as bodas, um grupo de artesãos se põe a ensaiar uma peça de teatro e marca um ensaio no bosque, à noite.

Durante os preparativos para a festa, o duque é procurado por Egeu para resolver o problema causado por sua filha Hérmia, que fora prometida a Demétrio, mas se recusa a casar com ele, preferindo Lisandro que também a ama.

Teseu dá o veredito e diz a Hérmia que ela deve se casar com Demétrio ou entrar para um convento.
Os apaixonados resolvem, então, fugir e marcam um encontro no bosque, à noite.

Demétrio, por sua vez, é amado por Helena, com quem estava prometido, anteriormente, tendo-a abandonado por Hérmia.  Ela, sabendo do plano de fuga de Hérmia e Lisandro, conta tudo a ele.

Resumindo, todo mundo vai para o bosque à noite....

Enquanto isso,  no mesmo bosque, o rei das fadas e duendes briga com a rainha e manda um ajudante buscar a flor do amor-perfeito para espremê-la sobre os olhos da rainha, fazendo com que ela se apaixone pelo primeiro ser que vir ao acordar.
No caminho, para se divertir, o ajudante passa por um dos atores que estava no ensaio e transforma sua cabeça em uma de burro...

A flor é espremida a torto e a direito, fazendo com que a rainha se apaixone pelo burro, Demétrio e Lisandro deixem Hérmia e se apaixonem por Helena.... ou seja, confusão total.

No final, as coisas se ajeitam e os atenienses voltam para as bodas de Teseu, achando que sonharam com tudo.

Durante a festa, a peça é representada (uma peça dentro da peça, como na Megera Domada), contando o caso de amor de Tisbe e Píramo, que lembra o de Romeu e Julieta...

Os especialistas em Shakespeare ressaltam sempre a qualidade do texto, normalmente rimado, característica que, com a tradução, se perde bastante.  Mas duas frases, em particular, me chamaram a atenção, já que têm vida fora do contexto:

"(...) os homens que mais detestam as falsas crenças são os que tiveram de abandoná-las porque nelas acreditavam."

"(...) têm língua amarrada o amor e a simplicidade: quanto menos falam, mais dizem".

A obra foi musicada por vários compositores, entre eles, Mendelssohn.  Dentre as peças que compõem seu balé, está a super-hiper-conhecida marcha nupcial.

São muitos filmes que montam a peça ou a citam,  motivo porque não vou nem tentar citá-los aqui.




[terminei em 10/04/2013]

sábado, 16 de março de 2013

10 Coisas que Odeio em Você

10 Coisas que Odeio em Você
Dir. Jil Junger (1999)
Julia Stiles e Heath Ledger

Como acabei de ler "A Megera Domada", soube da existência dessa nova versão filmada e fui a ela.

É a peça em versão adolecente americana, que não funcionou.

Sei que muita gente que adora o filme vai pular, mas realmente não funcionou, o que é uma pena.

Antes de ver, fiquei imaginando como teriam adaptado, para os dias de hoje, a exigência milenar de a segunda filha somente se casar depois da primeira...  E não é que o roteirista resolveu brilhantemente?  Mas, apesar disso, errou na mão no restante. A Kat tem vagos momentos de "megerice" e a Bianca, que devia ser doce e suave, é muito agressiva.  Conseqüentemente, o contraste se perde. E se perde a razão de ser da trama, do problema que move os personagens.

Na peça, ninguém queria a Catarina, por causa de seu gênio. No filme é a Kat que não quer ninguém.  São duas coisas bem diferentes.  Na peça, Catarina terroriza a vida da irmã. No filme, ela aceita sair com o Patrick para agradá-la...

E,  depois de um certo momento, o filme descamba geral, vira realmente mini-série de baile de formatura americano e abandona totalmente o enredo, vez que o Patrick parece mais domado do que a Kat no final...

O ritmo do filme é inconstante e ele só se alcançou sucesso pela grande força dos atores principais que, apesar de jovens, tinham (ele morreu) grande carisma e abraçaram com vontade os personagens.

Resumindo, continuo com a versão da Elisabeth Taylor...


[Assisti em 15/03/2012]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Megera Domada

A Megera Domada (The Taming of the Shrew)
William Shakespeare (1592)
(50 pág.)


Teatro.

Peça cômica de Shakespeare, escrita a partir de histórias conhecidas na época.

A peça começa com uma outra história, na qual um nobre resolve brincar com um bêbado, colocando-o dentro de sua casa e fazendo com que todos os criados o tratem como se fosse o dono da casa que estivesse sofrendo de uma falta de memória.
No meio da brincadeira, aparece um grupo de teatro que apresenta a história da megera domada.  O ponto estranho é que, após o fim da história, Shakespeare não volta à trama inicial, que termina sem fim.

Mas vamos à peça dentro da peça:

Bianca, moça bonita e delicada, atrai vários pretendentes, mas seu pai insiste em afirmar que ela somente poderá se casar depois de sua irmã mais velha, Catarina.

O problema é que Catarina é intratável e maltrata até mesmo a doce Bianca.

Os pretendentes de Bianca, então, resolvem buscar um pretendente para Catarina e encontram Petruchio.
Eles se casam rapidamente e Petruchio começa a "domar" a incontrolável Catarina, fazendo-a passar fome e ficar sem dormir, sempre com subterfúgios, de que a comida não fosse boa o bastante para ela, de que a roupa que ela ia vestir não estivesse à sua altura, que a cama não estivesse corretamente preparada... tudo como se estivesse realmente querendo o bem dela.

Enquanto isso, os pretendentes, livres, podem agir, mas um deles, troca de lugar com o empregado e se faz passar por professor para se aproximar de Bianca. Eles terminam casando.  Outro pretendente, desiludido, também se casa com uma viúva que há muito gostava dele.

Na festa de casamento, todos se reúnem e Petruchio propõe aos outros uma aposta, de que sua mulher era mais obediente que as outras...


A peça já foi inspiração para vários filmes. Já vi o do Zefirelli, com a Elisabeth Taylor (ótima como Catarina!) e ainda quero ver o "10 coisas que odeio em você".

Também já rendeu várias novelas brasileiras.  "A Indomável", da TV Excelsior, eu obviamente não pude ver, já que passou em 1965. Já "O Machão", da TV Tupi, assisti quando criança, foi uma novela de grande sucesso e que, por isso, durou muito, sendo transmitida entre os anos de 1976 e 1978. Lembro que era ambientada nos anos 20 e as festas de Natal e Reveillon da ficção coincidiam com as da realidade. Era estrelada pelo Antônio Fagundes e a Maria Isabel de Lisandra, ambos ótimos.  Recentemente (2001), a TV Globo fez sua adaptação, que eu não assisti, com o nome de "O cravo e a rosa", com Eduardo Moscovis e Adriana Esteves.

Voltando ao livro, comprei minha edição em um sebo, pela internet (o que impede que a gente folheie e examine o livro) e lamentei bastante. A edição é pobre, horrorosa, com o texto apertado, quase sem margem, e a tradução é péssima!!!! Somente após é que soube que o Millor Fernandes também traduziu o texto, que saiu em edição da L&PM, que, embora esgotada, era a que devia ter comprado.  Acidente de percurso...

Não sei se por causa da edição ou se porque já conhecia a trama, mas não me rendeu nem um risinho sequer. Ainda assim, vale como segunda opção do Desafio Literário. 



[terminei em 19/02/2013]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Jardim das Cerejeiras e Tio Vânia

O Jardim das Cerejeiras seguido de Tio Vânia
Anton Tchékhov (1904 e 1900)
trad. Millôr Fernandes
L&PM (148 pág.)

Teatro.

Este livro reuniu duas das peças mais famosas do escritor russo Tchékhov.

O Jardim das Cerejeiras mostra uma família que, originalmente teve posses e dominou uma região e que, no momento da peça, está em total decadência, com muitas dívidas.

Os mais velhos são dois irmãos, uma mulher, que vinha sendo explorada pelo novo companheiro, e seu irmão, que não faz nada além de jogar sinuca.

Eles voltam à velha casa da família, onde passaram uma infância feliz, e lá,  têm de enfrentar a questão das dívidas, já que a casa e o terreno, onde se encontra um lindo jardim de cerejeiras, estão ameaçados de ir a leilão.

Só que eles continuam em seus péssimos hábitos, se recusando a trabalhar e gastando de forma insensata...

Tchékhov faz um lindo retrato da Rússia em que vivia.
Ele coloca em xeque tudo e mais um pouco,  os hábitos perdulários da classe dominante, a questão dos escravos e a forma pela qual a escravidão foi abolida, a forma insensata e egoísta da nova classe que está assumindo o poder, dos novos ricos que, apesar de terem dinheiro, não têm sensibilidade para outras questões, e tudo isso circula em torno de um símbolo da própria Rússia: o jardim das cerejeiras que, embora lindo, praticamente não produz mais frutos.

É sua última peça, Tchékhov morre meses após, e ele se reflete no empregado que, esquecido por todos, depois de trabalhar toda uma vida em prol dos outros, se deita e morre, sozinho.

Já em Tio Vânia, o autor mostra como a classe intelectual se tornou inútil, já que não produz  mais nada, rodando em torno de seu próprio umbigo, com textos e críticas que não dizem coisa alguma, e como ela suga e explora os trabalhadores, que vivem de forma sofrida somente para sustentá-los, como o que dá nome à peça, o Tio Vânia.

Tchékhov escreve bem e é muito sensível e faz com que o espectador ou, no caso, o leitor, olhe em volta e, para si mesmo, com um olhar mais crítico.
 
Recomendado.

Ah, e a capa desta edição é linda! Foi uma escolha perfeita para as obras. 
[terminei em 02/01/2013]

domingo, 6 de janeiro de 2013

Durma, eu ordeno!

Dormez, je le veux!
Georges Feydeau (1897)
ebook (109 pág.) 

Teatro.

História sobre os efeitos da hipnose que vem sendo imitada, desde então, por muitos outros autores.

Um empregado hipnotiza seu patrão para que este faça o serviço da casa em seu lugar.


Só que o patrão está planejando casar e o pai da noiva também é versado nas artes do hipnotismo.

Eu, particularmente, não gostei.  As relações entre os personagens são muito agressivas e a peça envelheceu com o tempo.  Mas, como já disse, o tema ficou famoso e foi ultra repetido por comediantes de todo o mundo.



[terminei em 11/07/2012]

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Admirável Crichton


The Admirable Crichton
J. M. Barrie (1902)
ebook (96 pág.)

Teatro.

Mais de uma vez, meu marido comentou comigo sobre um filme que ele viu há muito tempo atrás, sobre uma família com um mordomo que naufraga e vai parar em uma ilha. 

Lá, a relação entre eles, obrigatoriamente, muda, já que a família inglesa, do início do século XX, não sabia fazer nada, mas o mordomo e a criada sabiam...  em particular, o mordomo.

Encasquei com a coisa e, afinal, a internet serve para isso, não é?  Descobri o autor, o escritor Sir. James Mathew Barrie, o mesmo que escreveu Peter Pan.

E encontrar o livro?   Em português, se houve uma edição, já se esgotou há tempos...  Nem no sebo achei.

Tentei comprar uma versão em francês... também nada.  A única livraria que tinha o livro disponível não envia para o Brasil!!!!

Só que o texto, de autor morto em 1937, já está em domínio público desde 2007, motivo porque o encontrei disponível e de graça, no projeto Gutenberg (http://www.gutenberg.org/ebooks/3490), em inglês...

Eu não sou fluente em inglês, pelo menos não da mesma forma como leio em francês, mas me enchi de coragem e fui lá.


O texto é abordável e, com um dicionário aberto em outra janela, foi fácil.


E a história é ótima, muito boa mesmo.  Uma séria crítica à forma pela qual as convenções sociais menosprezam os verdadeiros dons em detrimento das posses. 
 
Imperdível! Amei!

Recomendo, e muito!


[terminei em 22/04/2012]

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Casa de Bonecas

Casa de Bonecas
Henrik Ibsen (1879)
Veredas (103 pág.)

Teatro.

Nora, mulher muito bonita e alegre, casada com um advogado, Helmer, se prepara para uma festa a fantasias onde irá se apresentar dançando enquanto seu marido tocará uma tarantela.  Durante os preparativos, recebe a visita de uma antiga amiga, de um funcionário do banco onde o marido trabalha e de um médico.

Eu gosto de ler livros sem saber nada sobre a história. Acho que, assim, a gente aproveita todas as emoções, os risos, as lágrimas e os sobressaltos que o autor preparou para nós.

Conseqüentemente, eu me esforço para não contar nada das histórias aqui, respeitando o direito dos meus visitantes de apreciar o livro da mesma forma que eu, o que torna desesperador o meu trabalho de falar sobre os livros que li.

É o caso deste. É quase impossível falar qualquer coisa sem revelar muito.

A questão principal, que só menciono porque é  amplamente divulgada, é que Ibsen trata da forma que as mulheres são vistas pelos homens, como bonecas, motivo do nome da peça.

E isso é que faz da peça algo realmente impressionante:  foi um homem que a escreveu, e esse homem foi capaz de se colocar no lugar de uma mulher e sentir como ela.

Parece que Ibsen teria se inspirado em um caso real, vivido por Laura Kieler, modificando o desfecho da trama na peça.

Parabenizado por algumas mulheres, o autor teria dito:
(...) Eu sou mais poeta do que filósofo e declino da honra de ter lutado conscientemente pela causa feminista. Eu não consigo sequer ver o que seja a causa feminista. Para mim, há somente uma causa, a da humanidade. (...)  Eu considero como um dever educar o povo pela cultura intelectual, mas, antes que se possa formar o homem, é preciso formar a criança. E cabe à mãe a tarefa de acordar no íntimo da criança o gosto pela cultura e o respeito pela disciplina moral.  As mulheres, como mães, e somente desta forma, podem e devem resolver o problema humano."  (Teoria que, anos mais tarde, seria retomada por Foucaut).

Em suma, a peça trata do respeito devido a um ser humano.

E recomendo. Bastante. Para homens e mulheres.

[terminei em 07/09/2011]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Não se brinca com o amor

On ne badine pas avec l'amour
Alfred de Musset (1834)
ebook (96 pág.)

Teatro.

Pelo início pensei que era uma comédia de costumes, daquelas que um se apaixona pela outra e, depois de um monte de confusões, tudo se acerta.



Não é.  Vai nesse clima até o final que, surpreendentemente, transforma a história em drama.

Permeando a trama, nota-se claramente uma crítica social, ao clero, à educação e aos costumes em geral.


Foi surpreendente, embora não tenha chegado a me apaixonar.
Mas recomendo, mesmo assim.



[terminei em 14/08/2011]

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Doente Imaginário

Le Malade Imaginaire
Molière (1673)
ebook (+/- 93 pág.)

Teatro

Viúvo que se casou novamente com mulher que finge amá-lo mas está somente interessada no dinheiro que poderá ganhar após sua morte, é hipocondríaco e gasta fortunas em médicos, remédios e tratamentos.


Querendo economizar, resolve casar sua filha mais velha com um médico. Só que ela é apaixonada por outro jovem.

Quem resolve a questão é a empregada, tema recorrente em Molière, que coloca sempre os servos e mais pobres como mais espertos e inteligentes.

Última peça de Molière que, inclusive, morreu durante uma representação quando interpretava o "falso doente".

O curioso é que o tema da morte está permanentemente presente na história, pelo medo de Argan, pelo plano de suicídio dos jovens apaixonados, pela simulação da morte para testar os parentes...

Molière, que estava doente,  claramente se insurge contra os métodos e a exploração de médicos e farmacêuticos que cobravam fortunas por tratamentos que de nada serviam.


Não está entre as melhores peças, ainda mais porque lembra, em muito, O Avarento, pela loucura do personagem principal, um maníaco por dinheiro e outro hipocondríaco.

Só que o Avarento é melhor.

Mas, como já disse anteriormente, em outro post, Molière é ótimo e até seus trabalhos menos inspirados são bons.


[terminei em 17/07/2011]

domingo, 24 de julho de 2011

Cyrano de Bergerac

Cyrano de Bergerac
Édmond Rostand (1897)
ebook (191 pág.)

Peça de Teatro.

Mosqueteiro hábil com a palavra e com a espada, arruma inimigos com a primeira e deles se vinga com a segunda.






A peça começa com uma grande exibição de seus talentos, em um teatro onde se encontrava a sua linda prima, Roxane, por quem é apaixonado sem jamais ter tido coragem de se revelar, por se achar muito feio, dono de um nariz enorme.

No dia seguinte, recebe um recado dela, marcando um encontro.
Cheio de esperanças, escreve uma carta que pretende entregar a ela durante a conversa, onde exibe todos os seus sentimentos.


Só que, antes que ele possa entregar a carta, ela começa a falar.

E conta que, na véspera, viu um belo jovem no teatro, por quem se apaixonou.

E, sabendo que ele é cadete na companhia de Cyrano, pede para que este o proteja, já que era hábito submeter os novos recrutas a provas de força e coragem (hábito que se mantém até hoje, com o nome de trote).
Pede, ainda, que lhe diga para escrever a ela.

Encontrando com o jovem, Christian, fica sabendo que este também está apaixonado por ela, mas não possui qualquer habilidade com as palavras.  Cyrano, então, dá a ele a carta que tinha preparada em seu bolso.

Não conto mais para não estragar a história para quem não a conhece ainda.

O Cyrano real, que inspirou o personagem



É uma obra incrível, escrita integralmente na forma rimada, criando uma história fictícia sobre um personagem real, que viveu entre 1619-1655, na cidade francesa de Bergerac.







Duas cenas ficaram antológicas e vêm sendo repetidas à exaustão:

a das variadas descrições sobre o nariz, muito engraçada;


e a do balcão em que, à semelhança de Julieta,  Roxane tem a seus pés, não um, mas dois apaixonados, um belo e o outro sensível, o primeiro que aparece e o segundo que fala em seu lugar, como um ventríloquo.

Édmond Rostand, tendo caracterizado Cyrano como um exímio espadachim, homenageia três outros famosos personagens da literatura: Scaramouche, que é citado durante o duelo, D'Artagnan que, mosqueteiro como Cyrano, aparece para o cumprimentar, ao fim do embate e Dom Quixote, a quem Cyrano é comparado, por se bater contra tudo e contra todos.


A peça foi transformada em filme várias vezes, sendo a minha versão favorita a de 1990, com Gerard Depardieu, que ficou perfeito no papel título.

Eu já conhecia a história, mas mesmo assim, tive muito prazer na leitura que, inclusive, ficou complicada em determinado ponto pelas lágrimas que me atrapalharam a visão...


Para que vocês tenham um gostinho,  separei um pequeno trecho (que eu traduzi, livremente), no qual Cyrano define um beijo e que eu achei lindo:

Um beijo, afinal de contas, o que é?
Um juramento feito mais de perto,
uma promessa mais precisa,
uma confissão que se quer confirmar,
um ponto rosa que se põe sobre o "i" do verbo amar (em Francês tem i: aimer).
É um segredo que toma a boca por orelha,
um instante de infinito que faz um som de abelha
uma comunicação tendo um gosto de flor,
uma forma de se aspirar um pouco o coração,
 e de se provar, no toque dos lábios, a alma!


Recomendado, claro.

[terminei em 13/07/2011]

terça-feira, 24 de maio de 2011

Traição dupla

La Double Inconstance
Pierre de Marivaux (1723)
ebook  (189 pág.)

Disponível, gratuitamente, em ebooksgratuits (em domínio público).
 
Teatro.

Escrevendo no período pré-Revolução Francesa, Marivaux critica os costumes de uma nobreza cheia de vaidades e falsidades.

Sílvia, uma moça do povo, desperta o amor do príncipe local e é levada a seu castelo.

Só que ela se diz apaixonada por Arlequim e recusa todos os presentes, festas e agrados que o príncipe lhe oferece e, ainda por cima, deixa de comer.



Para apaziguá-la, Arlequim também é levado ao castelo e  Fantine, uma jovem da corte, monta um estratagema para que tanto Sílvia quanto Arlequim desistam do amor que afirmam ter um para o outro.

Em tom de comédia, vários questionamentos são feitos.

Por exemplo:

Em um momento, oferecem bens a Arlequim para que este desista de Sílvia, entre eles, duas casas, na cidade e no campo.  O jovem então responde:

- Quem habitará minha casa na cidade quando estiver na de campo?
- Seus empregados, é claro!

- Meus empregados? Por quê tenho necessidade de fazer fortuna para eles? Não poderei morar em todas ao mesmo tempo?

- Não que eu saiba ; não é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo.

- Então, se não tenho este segredo, me é inútil ter duas casas.

- Quando desejar, poderá ir de uma à outra.

- Então, eu darei minha amada para ter o prazer de me mudar freqüentemente?

(a tradução livre,  muito livre, é minha.)





O bom das obras clássicas é que encontramos muitas edições, com capas diferentes.
Algumas bem lindas, não?

Recomendado, claro.
[terminei em 13/05/2011]

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Beaumarchais

Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais
(Paris, 1732 - Paris, 1799)
Retrato pintado por Nattier em 1755 fonte: Wikipedia)

Inicialmente relojoeiro, inventou mecanismo interno de relógio e aperfeiçoou os pedais da harpa.  (É, a harpa tem pedais, o que torna o instrumento muuuuito difícil de ser tocado, muito mais do que ele parece ser).

Foi também professor de música das filhas de Luís XV, participando ativamente da corte francesa.

Esteve envolvido em vários processos, pessoalmente, acusado de ter matado sua primeira esposa e de ter desviado a herança da segunda e, ainda, em questões de Estado, com a liberação e censura de textos e, até, na independência dos Estados-Unidos.

Na literatura, foi responsável pela edição das obras de Voltaire e, pessoalmente, como criador, fez sucesso com seus "factums", textos judiciários cheios de malícia, e com suas peças de teatro.

Duas delas são muito conhecidas, até hoje:


O Barbeiro de sevilha (ver post), peça transformada em ópera por Rossini.





e


As Bodas de Fígaro (ver post), também transformada em ópera por Mozart.


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

As Bodas de Fígaro

Le Mariage de Figaro
Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1778)
ebook (+/- 125 pág.)

Teatro, comédia.
Continuação de "O Barbeiro de Sevilha".

Na primeira peça, o Conde d'Almaviva, ajudado por Fígaro, consegue casar com Rosine, contra o vontade de seu tutor, Bartholo. 
Nesta, passado algum tempo, o Conde, seguro em seu casamento, se engraça com várias das servas, inclusive com Suzanne, camareira da Condessa, e noiva de Fígaro.

A peça critica os poderosos que "exerciam" justiça e ataca o "Direito do Senhor Feudal", ainda vigente, em que o dono das terras poderia passar a primeira noite com a jovem casada.


Figaro:  « Porque sois um grande Senhor, vós pensais ser um grande gênio!... Nobreza, fortuna, uma classe, posições : tudo isto traz tanto orgulho! O que vós fizestes para possuir tantos bens ? Vós tivestes somente o trabalho de nascer, e nada mais... »

Mas, como se trata de uma comédia, há milhões de confusões, troca de papéis, mãe que encontra seu filho perdido, ciúmes, ciúmes, ciúmes... , só que a peça, com todos os personagens da anterior e mais outros tantos,  ficou bem mais confusa .

Sobre a questão do ciúme, prefiro Marivaux. É mais leve e menos enrolado. Mas esta peça ficou famosa, graças a Mozart e sua ópera que, por sinal, é muito boa. 

Figaro:
Jean Jeannot, jaloux risible,                Fulano, ciumento ridículo
Veut unir femme et repos ;                 Quer unir mulher e tranqüilidade
Il achète un chien terrible,                   Ele compra um cão terrível
Et le lâche en son enclos.                    E o solta no quintal.
La nuit, quel vacarme horrible             À noite, que barulho horrível
Le chien court, tout est mordu,           O cão corre, todos são mordidos
Hors l’amant qui l’a vendu.                 Fora o amante que o vendeu.
(a tradução, livre, é minha)

[terminei em 09/01/2010]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Barbeiro de Sevilha

Le Barbier de Seville
Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1775)
ebook  (+/- 92 pág.)

Peça de teatro que deu origem à famosa ópera de Rossini.

Jovem é mantida cativa por seu tutor, mais velho, que deseja se casar com ela.
Ao mesmo tempo, um conde deseja encontrar uma mulher que o ame pela pessoa que ele é e não em decorrência de sua riqueza e posição social.
Ele se disfarça e se apresenta a ela que, obviamente, se apaixona por ele.
Depois de muito entra e sai, muita mentira, muita confusão, eles se casam.

A TV5 mantém em seu site pequenos trechos da peça.

Citação: " FIGARO. - Com relação às virtudes que se exige de um empregado doméstico, Vossa Excelência conhece muitos patrões que fossem dignos de ser contratados?»

É divertida, e foi seguida por As Bodas de Fígaro, que também rendeu uma ópera,  esta de Mozart.

[terminei em 02/01/2010]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

As preciosas ridículas

Les Precieuses Ridicules 
Molière (1659)
ebook (+/- 53 pág.)

Teatro.
Desta vez, Molière se ataca à vaidade, à presunção e a uma atitude em moda na França da época, o preciosismo, em que as pessoas estabeleciam o valor das outras pela forma de se vestir, se portar, de falar de forma rebuscada e de dar respostas irônicas, para não dizer sarcásticas. (nada a ver com os dias de hoje...)

Duas jovens interioranas chegam a Paris. O pai de uma (e tio da outra) lhes apresentam a dois pretendentes que elas rejeitam por não terem as qualidades dos personagens de romances, tratando-os mal.
Eles, furiosos, tramam a vingança.  Ordenam a seus lacaios que se apresentem a elas cheios de mesuras. Elas, é claro, se deixam levar pelas aparências e caem na armadilha.

Molière escreve sempre muito bem, com excelente humor, sempre divertido, mas se tivesse que escolher uma de suas obras para ler, recomendaria o Avarento ou o Tartufo.
Mas, que fique claro, é ótimo texto, não se perde nada lendo, ao contrário. A diversão é certa
[terminei em 29/07/2008]

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Avarento

L'Avare 
Molière (1668)
ebook (+/- 125 pág.)

Acho que é a peça mais conhecida de Molière.
O homem rico, que se veste mal, mora mal, come mal e desconfia de todos, até de sua sombra, em decorrência de sua avareza.
Como é uma comédia, obviamente ele é obrigado a gastar o seu rico dinheirinho...

Se é boa? Claro que sim, muito! Pode ler, sem medo.
(Infelizmente nunca fui assistir Jorge Dória no papel principal, todos que o viram disseram que estava magnífico.)  

[terminei em 09/08/2008]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O jogo do amor e da sorte

Le jeu de l'amour et du hasard
Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux (1730)
ebook (93 pág.)

Peça de teatro, comédia de costumes leve, em estilo que, sem sombra de dúvida, influenciou tudo o que veio depois.

Pai combina o casamento da filha com o filho de um amigo.  Os pais, no entanto, querendo respeitar a vontade de seus filhos, concordam que o casamento só será feito se eles assim quiserem.  Marcam, então, uma visita para que eles se conheçam.
Só que o rapaz (Dorante), querendo ter maior liberdade para analisar o comportamento da noiva, troca de identidade com seu valete (Arlequim).
A moça (Silvia), por sua vez, tem a mesma idéia, e troca de roupas e comportamento com sua dama de companhia (Lisette).
Os únicos que sabem de tudo são o pai (Orgon) e o irmão dela (Mário).
O resto é previsível, mas nem por isso menos agradável.
Texto ágil, leve e divertido.
Muito bom.
[terminei de ler em 20/09/2009]

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Esperando Godot


En Attendant Godot
Samuel Beckett (1949)
(134 pág.)
(Meus agradecimentos à Mediateca da Maison de France pelo empréstimo do livro)

Peça de teatro, em dois atos, representante do teatro do absurdo.
Dois mendigos (Estragon e Vladimir) esperam Godot e falam enquanto isso.

 Desde a primeira representação da peça, se pergunta qual o sentido escondido da obra, o que o autor queria dizer.  Este questionamento se baseia principalmente sobre a personagem (Godot) citada no título e mencionada ao menos 38 vezes na peça.   "Quem é Godot?" pergunta Pozzo no primeiro ato.

Já se suspeitou que o nome viria da junção de "God" (Deus em inglês) com o sufixo diminutivo em francês "-ot", interpretação recusada por Beckett, que afirmava que o nome viria da gíria francesa "godillot, godasse" referente aos sapatos que aparecem constantemente na peça.

O fato é que a associação de Godot com Deus é fortalecida pela profusão de citações e referências bíblicas no texto e às expectativas que os personagens possuem em relação a ele:
"É Godot! Enfim! ... Nós estamos salvos!"; "... este ... Godot ... do qual vosso futuro depende ..."; "- Se nós o deixássemos para lá? - Ele nos puniria.";  "Qual é o nosso papel nisso tudo? - Nosso papel? Aquele do suplicante" e, ainda, "- E se ele vier? - Nós seremos salvos."

O primeiro ato é lento, quase insuportável, o que parece proposital - para marcar o tédio, o desespero, mas o ritmo é mais ágil no segundo.  O cenário mistura a natureza e a intervenção do homem (o meio de uma estrada onde só há uma árvore sem folhas), mas é um lugar isolado, lugar de passagem, onde não se fica para sempre, metáfora da vida.

Minha impressão é que o autor não pretendia apresentar soluções, sendo o texto principalmente um enorme questionamento sobre a existência humana, em todos os seus sentidos.  A primeira frase é representativa, Estragon tenta tirar os sapatos e diz: "Nada a fazer."
A frase retorna, mais tarde, com um sentido mais definido, demonstrando toda a desesperança com relação ao futuro:
            Estragon - Mesmo que a gente mude.
            Vladimir - A gente continua o que é.
            Estragon - Mesmo que a gente se agite.
            Vladimir - O fundo não muda.
            Estragon - Nada a fazer.

E, ainda:  "- ... Diga-me o que é preciso fazer.  - Não há nada a fazer."

Através de diálogos aparentemente destituídos de sentido, Beckett fala de todas as necessidades e preocupações humanas: o alimento (cenouras, nabos, ossos, frango), a vestimenta (calçados, trapos, chapéus), a arte (canto, dança, filosofia), o dinheiro, o sofrimento, a violência, a doença, os pesadelos, o tempo, a morte, o suicídio, a loucura, as relações humanas, a memória, o esquecimento, a necessidade e a solidão.
Os personagens suplicam por ajuda, mas não vêem solução e, quase no fim:
            Estragon - Eu me vou.
            Vladimir - Eu também. 
            ...
            Estragon - Onde a gente vai?
            Vladimir - Não muito longe.
            ...
            Vladimir - A gente não pode.
            Estragon - Por quê?
            Vladimir - É preciso voltar amanhã.
            Estragon - Para fazer o quê?
            Vladimir - Esperar Godot. 


Um menino chega para dizer que Godot não virá mais esta noite, mas que vem amanhã.  Eles tentam, uma vez mais, se enforcar com a corda que sustenta as calças de Estragon, mas ela está podre. As calças caem. O homem não está mais escondido. Ele está nu, como Adão diante de Deus.

Renunciam, então, ao suicídio.
            Então, vamos lá?
            Vamos. 


Mas eles não se movem, explica Beckett.

Pelo tamanho do post, dá para ver que gostei muito e recomendo.

[terminei em 10/08/2009]

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Cantora Careca e a Lição

La cantatrice chauve suivi de La leçon
Ionesco (1952)
Folio - 150 pág

Duas excelentes peças de teatro, representantes do "teatro do absurdo".

A cantora careca:
Passada em um cenário único (residência de Mme e M. Smith),  trata da impossibilidade de comunicação entre as pessoas e da banalidade dos seres humanos, em geral.

A cena do casal Martin, embora provoque eventuais risos,  é de profundo drama, mostrando como é possível que as pessoas passem uma vida juntos sem nunca chegarem realmente a se conhecer.

Sr. Martin - Que estranho, curioso! Então, minha senhora, moramos no mesmo quarto e dormimos na mesma cama, minha cara senhora. Talvez seja lá que tenhamos nos encontrado!
Sra. Martin - Que curioso e que coincidência! É bem possível que tenhamos nos encontrado lá, e talvez até mesmo na noite passada. Mas eu não me lembro, meu caro senhor. 


Ionesco dizia que teve a idéia da peça após começar a estudar inglês, achando muito estranho os diálogos mantidos pelos personagens dos livros, como: "Olá, eu sou a senhora X, meu vestido é azul.... "


A Lição:
Crítica feroz ao ensino.
Aluna cheia de vida procura professor que, após afrontá-la com intermináveis questionamentos sobre conhecimentos totalmente inúteis e desnecessários, acaba por matá-la. 
Absurdo da situação que, infelizmente, não afasta a sua extrema realidade.

Um registro do próprio autor lendo em público as duas peças (em francês) pode ser encontrado em  http://www.ubu.com/sound/ionesco.html
[terminei em 10/04/2009]