Uma Aventura na África (The African Queen)
John Huston (1951)
Humphrey Bogart / Katherine Hepburn
O cérebro da gente é estranho.
Às vezes a gente guarda impressões esquisitas sobre uma coisa e depois não sabe mais o porquê.
Sempre deixei para depois esse filme porque pensava que fosse tenso, complicado, desagradável...
Não é.
História simples e criativa, esplêndidamente contada por dois ótimos atores.
Katherine Hepburn dispensa qualificações, é excelente atriz, capaz de mostrar no rosto trezentos mil graus de emoções.
Boggart, cuja imagem ficou muito presa à do detetive durão, mostra neste trabalho, que era mais do que aquilo. Muito mais.
O Oscar costuma ser um prêmio injusto, mas não foi neste caso. Ele realmente mereceu.
Bom, em 1914, no meio da África, uma aldeia é totalmente destruída por soldados alemães e o pastor missionário morre (Robert Morley tem pequena participação, mas dá um show), logo após, do susto, desgosto, etc. Fica sua irmã (Hepburn), solteirona solitária, totalmente abandonada.
O barqueiro (Bogart) que costumava trazer mantimentos a resgata e vão os dois rio abaixo em um barquinho rudimentar (African Queen é o nome do barco).
Ele comenta que, no final do rio, há um lago onde está um grande navio alemão. Ela, então, tem a idéia de atacar o navio....
Mais eu não conto, veja o filme, vale a pena.
No DVD que peguei, tinha também um ótimo "making of", igualmente divertido.
Por ele a gente sabe que Bogart foi o primeiro a ser chamado. Quando lhe perguntaram com quem gostaria de trabalhar, escolheu Hepburn.
O filme foi quase todo rodado na África mesmo, dentro d'água, um trabalhão danado, sem condições mínimas de conforto e higiene. (Em determinado momento, tiveram que abandonar parte do alojamento, tomado por formigas agressivas)
Lauren Bacall, esposa de Bogart, acompanhou a viagem e, apesar de ser estrela, não se comportou como uma, vez que ajudava a cozinhar, limpar, etc.
Na foto, dos bastidores, aparecem os três, em momento entre tomadas. Bogart morreu um pouco após (1957), e Bacall e Katherine ficaram amigas até o fim da vida desta.
O documentário também conta que os produtores achavam que era melhor deixar o filme guardado, que aquilo jamais faria sucesso, afinal mostrar uma atriz praticamente sem maquiagem, mostrando sinais da idade...
Grande engano. John Huston deu um jeito de o filme ser exibido ainda em 1951 (em dezembro) e foi um grande, enorme sucesso. A carreira de Hepburn, inclusive, mostrou uma nova ascensão a partir deste momento.
Conseqüentemente, o filme foi indicado, juntamente com atriz e ator para o Oscar imediatamente a seguir.

Bogart nunca tinha recebido o prêmio. Nesta ocasião, achou que não teria chance, porque os outros indicados eram: Montgomery Clift (Um lugar ao Sol), Marlon Brando (Um bonde chamado Desejo ou, sei lá porquê, "Uma rua chamada pecado") e Fredric March (A Morte de um Caixeiro Viajante), realmente uma disputa difícil.

Na noite, um amigo lhe perguntou o que iria falar. Ele disse que nem tinha pensado nisso, achava que não ganharia. O amigo então sugeriu: suba, pegue a estatueta, em silêncio, olhe para ela, por um longo momento, e depois diga: "Até que enfim!" Bogart riu, achou boa a idéia, disse que faria.
Quando, surpreso, foi realmente chamado, fez um longo discurso, agradecendo a todo mundo que podia.
Na volta, o amigo perguntou porque não fizera o combinado e ele respondeu: "Quando você ganhar o seu, você faz assim."
O filme também ganhou o Oscar. Já o de melhor atriz não foi para Katharine, mas para Vivien Leigh (fantástica como Blanche Dubois).
Resumindo, recomendo o filme e o documentário.
[assisti em 26/02/2011]